
Tratamento do Linfoma Afeta a Fertilidade? Opções e Planejamento para o Futuro

Atualizado: 5 de março de 2026

Hematologista
Dr. Marcel Brunetto
CRM 109.334
Receber o diagnóstico de linfoma desencadeia uma avalanche de preocupações imediatas. O foco, naturalmente, se volta para o início do tratamento, os ciclos de quimioterapia e a busca pela cura. No entanto, para pacientes em idade reprodutiva, existe uma conversa que não pode ser adiada: o impacto do tratamento na fertilidade.
Muitos quimioterápicos e protocolos de radioterapia, embora vitais para combater o câncer, podem agredir as células germinativas (óvulos e espermatozoides). Felizmente, a medicina reprodutiva avançou lado a lado com a hematologia, oferecendo hoje janelas de oportunidade para proteger o sonho de ter filhos.
Neste artigo, compreenda como os tratamentos afetam a fertilidade e quais são as estratégias seguras para preservá-la antes de iniciar a terapia.
Conteúdo do Artigo
Por que o Tratamento do Linfoma Afeta a Fertilidade?
O tratamento do linfoma geralmente envolve drogas citotóxicas, que têm como alvo células que se dividem rapidamente. O problema é que, além das células cancerígenas, os gametas também podem ser afetados.
- Nas Mulheres: A quimioterapia pode acelerar a perda da reserva ovariana. O risco é maior com agentes alquilantes (comuns em esquemas para linfomas agressivos) e com a idade avançada da paciente.
- Nos Homens: O tratamento pode afetar a produção de espermatozoides, causando azoospermia (ausência de espermatozoides) temporária ou permanente, dependendo da toxicidade do esquema escolhido.
O Transplante de Medula Óssea (TMO), frequentemente utilizado em casos de recidiva, merece atenção especial. Como ele exige doses muito altas de quimioterapia (condicionamento), o risco de infertilidade permanente é significativamente maior, tornando a preservação prévia quase mandatória.
Opções de Preservação para Homens
Para o público masculino, o processo é tecnicamente mais simples e não costuma atrasar o início do tratamento oncológico.
Criopreservação de Esperma
Consiste na coleta de amostras de sêmen, que são congeladas em nitrogênio líquido.
- Quando fazer: Idealmente, antes do primeiro ciclo de quimioterapia. Mesmo uma única sessão pode reduzir a qualidade dos espermatozoides e aumentar o risco de danos ao DNA da célula reprodutiva.
- Logística: Geralmente, são solicitadas de duas a três coletas, com um intervalo curto entre elas (dias). Portanto, assim que o diagnóstico é confirmado, o encaminhamento ao especialista em reprodução deve ser imediato.
Opções de Preservação para Mulheres
Para as mulheres, o cenário exige um planejamento mais detalhado, pois envolve procedimentos que dependem do ciclo hormonal e do tempo disponível antes do início da quimioterapia.
Congelamento de Óvulos ou Embriões
É a técnica mais consolidada e com maiores taxas de sucesso.
- Como funciona: A paciente passa por uma estimulação ovariana controlada (com hormônios) por cerca de 10 a 14 dias para produzir múltiplos óvulos, que são então coletados e congelados (ou fertilizados para congelar embriões).
- Segurança: Antigamente, havia medo de que os hormônios pudessem estimular o câncer, mas estudos mostram que, para linfomas, o procedimento é seguro. Além disso, existem protocolos de “início randômico”, que permitem começar a estimulação em qualquer fase do ciclo menstrual, sem precisar esperar a próxima menstruação, ganhando tempo precioso.
Transposição Ovariana
Indicada especificamente quando a paciente vai passar por radioterapia pélvica. Trata-se de uma cirurgia para “mover” os ovários para fora do campo de radiação, protegendo-os da exposição direta.
O Papel da Equipe Multidisciplinar
O sucesso da preservação da fertilidade depende de uma variável crítica: o tempo. A janela entre o diagnóstico e a necessidade de iniciar a quimioterapia pode ser curta, às vezes de apenas algumas semanas ou dias.
Por isso, a comunicação entre o hematologista e o especialista em reprodução humana deve ser direta e ágil. Não é necessário escolher entre tratar o câncer ou preservar a fertilidade; com a coordenação correta, é possível conciliar ambos.
Quando a Preservação Não é Possível?
Existem cenários de urgência médica, quando o linfoma está muito agressivo ou comprometendo funções vitais, onde não é seguro aguardar as duas semanas necessárias para a coleta de óvulos. Nesses casos, a prioridade absoluta é a vida da paciente.
Para os pacientes que já iniciaram o tratamento sem preservar, a recomendação é aguardar. Em muitos casos, especialmente em pacientes jovens tratados com protocolos menos intensivos (como o ABVD no Linfoma de Hodgkin), a fertilidade pode retornar espontaneamente após alguns meses ou anos. O monitoramento dos níveis hormonais pós-tratamento ajudará a entender esse retorno.
Se você ou alguém da sua família recebeu este diagnóstico, converse com seu hematologista sobre os riscos reprodutivos e as opções disponíveis. O acolhimento dessa demanda faz parte do plano de tratamento, garantindo que suas escolhas de hoje protejam seus sonhos de amanhã.

