
Tratamento da Leucemia Aguda: Como Proteger o Sistema Reprodutivo

Atualizado: 16 de outubro de 2026

Hematologista
Dr. Marcel Brunetto
CRM 109.334
No diagnóstico de leucemia aguda, junto com o medo e as perguntas sobre o tratamento, surge uma questão que muitos pacientes têm vergonha de levantar: o que vai acontecer com a minha fertilidade? A discussão sobre fertilidade no tratamento da leucemia aguda é complexa e, infelizmente, ainda acontece muito menos do que deveria.
Continue a leitura deste artigo para compreender por que o tratamento da leucemia aguda representa um risco significativo para a função reprodutiva, quais são as opções disponíveis para preservar a fertilidade – e o que torna esse cenário diferente, e mais desafiador, do que em outros tipos de doença do sangue.
Conteúdo do Artigo
Fertilidade no Tratamento da Leucemia Aguda: Por que Cuidar Antes
A leucemia aguda, seja ela mieloide (LMA) ou linfoide (LLA), é uma doença que não espera. O tratamento precisa começar rapidamente, muitas vezes em dias. Enquanto em outros cânceres existe uma janela de duas a quatro semanas para discutir e executar procedimentos de preservação de fertilidade, na leucemia aguda essa janela pode se reduzir a horas.
Por que o Tratamento da Leucemia Aguda Ameaça a Fertilidade
Os óvulos e os espermatozoides são células extremamente sensíveis. E os quimioterápicos utilizados na leucemia aguda, por serem tão potentes contra as células que se dividem rapidamente, atingem também o tecido reprodutivo com força considerável.
Os Agentes Mais Gonadotóxicos
Os esquemas de quimioterapia utilizados na indução da remissão da leucemia aguda variam conforme o subtipo da doença, mas muitos deles incluem agentes alquilantes — como a ciclofosfamida e o bussulfano — que estão entre os mais gonadotóxicos conhecidos. Os compostos de platina, também presentes em alguns regimes, têm toxicidade gonadal moderada a alta.
E quando o tratamento avança para o transplante de células-tronco hematopoiéticas, frequentemente necessário na leucemia aguda de alto risco, o regime de condicionamento mieloablativo, que combina quimioterapia de alta dose com irradiação corporal total, leva a falência ovariana em quase 100% das mulheres tratadas.
O Tempo Como Fator Decisivo
Na maioria dos casos de leucemia aguda, o tratamento não pode ser postergado para que a paciente realize estimulação ovariana convencional — que leva entre 10 e 14 dias. Há também fatores clínicos que complicam ainda mais esse cenário:
- A coagulopatia presente em muitas leucemias agudas aumenta o risco de sangramento durante procedimentos invasivos;
- A neutropenia eleva o risco infeccioso.
Tudo isso torna a preservação de fertilidade na leucemia aguda um território muito mais complexo do que em outros contextos.
Quais São as Opções de Preservação – e seus Limites
Mesmo diante de todas essas dificuldades, em alguns casos é possível preservar a fertilidade. Existem riscos específicos, mas existem caminhos, e conhecê-los é o primeiro passo.
Para Mulheres: Entre a Urgência e a Segurança
A criopreservação de oócitos ou embriões é a abordagem mais estabelecida para mulheres pós-púberes. Quando o tempo permite, protocolos de estimulação ovariana de início aleatório permitem concluir o processo em 10 a 14 dias, sem necessidade de aguardar o início do ciclo menstrual. A taxa de nascidos vivos com embriões criopreservados chega a 35% a 41%, e com oócitos, a 26% a 32%. São números que justificam o esforço.
Para meninas pré-púberes ou para pacientes em que o tratamento absolutamente não pode ser postergado, a única alternativa realista é a criopreservação de tecido ovariano. Esse procedimento envolve a retirada cirúrgica de fragmentos do ovário, que são armazenados e podem ser reimplantados após a remissão da doença.
O problema é que, na leucemia aguda, existe um risco particular e muito sério: o tecido ovariano pode estar contaminado com células leucêmicas. Reimplantar esse tecido sem uma triagem molecular rigorosa pode significar reintroduzir a doença que tanto se lutou para eliminar.
Por isso, as diretrizes internacionais mais recentes, incluindo a atualização da ASCO de 2025, orientam que o reimplante de tecido ovariano em leucemias agudas só seja considerado com resultado negativo confirmado para doença residual mínima.
Há ainda uma opção emergente: a maturação in vitro (MIV). Ela consiste na coleta de oócitos imaturos de ovários não estimulados, seguida de maturação em laboratório antes da criopreservação. As taxas de sucesso ainda são menores do que com a estimulação convencional, mas a MIV é uma alternativa real para pacientes que não podem esperar nem mesmo o tempo de um ciclo estimulado.
A ASCO reconhece essa técnica em sua última atualização como uma opção promissora para casos de urgência.
Uma informação importante: os agonistas do GnRH — hormônios utilizados para suprimir a função ovariana durante a quimioterapia, como estratégia de proteção — não demonstraram benefício comprovado na preservação da fertilidade em pacientes com doenças hematológicas. Estudos de longo prazo em pacientes com linfoma confirmaram essa limitação, e as diretrizes atuais são claras: os agonistas do GnRH não devem ser utilizados como método único de preservação de fertilidade, podendo ser considerados apenas como adjuvantes em situações muito específicas.
Para Homens: Uma Janela Mais Simples
A criopreservação de espermatozoides é o método mais direto e factível para homens pós-púberes. O processo é simples, não invasivo, não exige espera e pode ser realizado em horas, o que o torna compatível até com os casos de maior urgência.
Para meninos pré-púberes, a criopreservação de tecido testicular ainda é considerada experimental, mas vem sendo realizada em centros especializados com crescente evidência de segurança.
O Que Fazer Diante do Diagnóstico
Receber o diagnóstico de leucemia aguda e ainda ter que pensar na fertilidade parece demais para processar. As seguintes orientações resumem o que a evidência atual recomenda para quem enfrenta esse cenário:
- Se o médico não abordar o tema espontaneamente, você tem todo o direito de perguntar. A discussão sobre fertilidade deve acontecer antes do início da quimioterapia, mesmo em casos urgentes;
- Ser encaminhado a um especialista em reprodução, que possa avaliar as opções em horas, não em dias;
- Entender que nem todos os esquemas de quimioterapia têm o mesmo grau de gonadotoxicidade. Pergunte ao seu médico qual é o risco do protocolo que será utilizado no seu caso;
- Não tome decisões sozinho. A preservação de fertilidade na leucemia aguda envolve riscos reais e variáveis individuais significativas. A decisão deve ser tomada em conjunto com a equipe médica, levando em conta o estágio da doença, a urgência do tratamento e o desejo reprodutivo do paciente.
Fertilidade é Parte do Cuidado Integral
A fertilidade no tratamento da leucemia aguda não é um assunto secundário. Para muitos pacientes, especialmente os jovens, que compõem parcela significativa dos casos, a possibilidade de ter filhos no futuro é parte essencial do que significa se recuperar. Ignorar essa dimensão não é neutralidade médica: é uma lacuna no cuidado.
Com as estratégias disponíveis atualmente, mesmo diante da urgência imposta pela doença, é possível preservar essa possibilidade para muitos pacientes, desde que a conversa aconteça cedo o suficiente.
Se você ou alguém próximo está diante de um diagnóstico de leucemia aguda, não hesite em buscar um hematologista com experiência em doenças do sangue. O acompanhamento especializado garante não apenas o melhor tratamento para a doença, mas também que aspectos como a preservação da fertilidade sejam abordados com o cuidado, a rapidez e a profundidade que merecem.
Mais informações sobre este assunto na Internet:
- Journal of IVF-Worldwide – Preservação da fertilidade em doenças hematológicas
- PMC (NCBI) – Artigo científico sobre preservação da fertilidade
- ASCO – Diretriz sobre preservação da fertilidade em pessoas com câncer

