
Diagnóstico de Leucemia Aguda e Fertilidade: É Possível Proteger o Futuro na Urgência?

Publicado: 18 de setembro de 2026

Hematologista
Dr. Marcel Brunetto
CRM 109.334
Receber o diagnóstico de leucemia aguda pode ser devastador. A mente vai direto para uma única direção: sobreviver. Mas, para muitos pacientes em idade reprodutiva, existe uma segunda pergunta que aparece logo depois: “Ainda vou poder ter filhos?” A boa notícia é que, hoje, leucemia aguda e fertilidade não são necessariamente caminhos opostos.
Neste artigo, compreenda o que é possível fazer para preservar a fertilidade mesmo diante da urgência do tratamento, quais são as opções disponíveis e por que essa conversa precisa acontecer o quanto antes com a sua equipe médica.
Conteúdo do Artigo
Leucemia Aguda e Fertilidade: Entendendo o Conflito Entre Urgência e Planejamento
A leucemia aguda é uma doença que não espera. Ao contrário de muitos outros cânceres, ela exige que o tratamento comece em dias, não semanas. Essa urgência cria um dilema real: o tempo necessário para preservar a fertilidade parece colidir com o tempo que a doença não dá. Mas esse conflito, embora real, é menor do que parecia ser há alguns anos.
A quimioterapia usada no tratamento da leucemia aguda é altamente gonadotóxica, ou seja, ela pode danificar os ovários e os testículos de forma significativa, comprometendo a produção de óvulos e espermatozoides. Quando o tratamento inclui o transplante de células-tronco hematopoéticas, o risco de infertilidade permanente é ainda maior, chegando a ser quase universal em alguns protocolos.
É por isso que a discussão sobre preservação da fertilidade precisa entrar na conversa desde o primeiro momento do diagnóstico.
Como o Tratamento Afeta a Fertilidade de Homens e Mulheres
Os efeitos do tratamento sobre a fertilidade não são iguais para todos. Eles variam conforme o sexo biológico, a idade, o tipo de leucemia e o protocolo terapêutico escolhido.
Nos homens, o principal risco é a redução ou a ausência total de produção de espermatozoides após a quimioterapia. Felizmente, a criopreservação de sêmen é um procedimento simples, rápido e bem estabelecido, que pode ser realizado em poucas horas, antes do início do tratamento. É a opção mais acessível e com menor impacto no cronograma terapêutico.
Nas mulheres, o cenário é mais complexo. Os ovários são especialmente sensíveis aos agentes quimioterápicos utilizados na leucemia aguda. As opções incluem:
- Criopreservação de óvulos (vitrificação de oócitos);
- Criopreservação de embriões (quando há parceiro ou doador de sêmen);
- Criopreservação de tecido ovariano.
Cada uma dessas opções tem indicações, vantagens e limitações específicas, e a escolha depende de fatores como a idade da paciente, o tempo disponível antes do início da quimioterapia e o estado geral de saúde.
A Janela de Tempo: O Que Fazer nas Primeiras 48 Horas
Por muito tempo, acreditou-se que preservar a fertilidade antes de tratar uma leucemia aguda era inviável. Esse cenário mudou. Hoje, protocolos de estimulação ovariana de início aleatório (random-start ovarian stimulation) permitem que todo o processo de coleta de óvulos seja concluído em 10 a 14 dias, sem necessidade de aguardar o início de um novo ciclo menstrual.
As primeiras 48 horas são fundamentais para decisão, encaminhamento e início do protocolo. Veja o que deve acontecer nesse período:
- Conversa franca com o hematologista sobre o impacto do tratamento na fertilidade;
- Encaminhamento imediato para um especialista em medicina reprodutiva ou oncofertilidade;
- Avaliação da reserva ovariana ou da qualidade do sêmen;
- Definição da estratégia de preservação mais adequada ao caso.
Não espere que alguém traga esse assunto. Se você está em idade reprodutiva e acabou de receber um diagnóstico de leucemia aguda, pergunte diretamente ao seu médico sobre as opções de preservação da fertilidade.
Criopreservação de Tecido Ovariano: Uma Opção Especial para Casos Urgentes
A criopreservação de tecido ovariano merece atenção especial no contexto da leucemia aguda. Nesse procedimento, uma parte do ovário é removida cirurgicamente, congelada e armazenada para reimplante futuro, após a remissão da doença. É a única opção disponível para meninas que ainda não atingiram a puberdade.
No entanto, existe uma preocupação importante: o tecido ovariano de pacientes com leucemia pode conter células leucêmicas, o que teoricamente poderia reintroduzir a doença no momento do reimplante. Por isso, esse procedimento exige triagem molecular rigorosa antes de qualquer utilização futura do tecido. Os avanços em rastreamento molecular têm tornado essa abordagem progressivamente mais segura, mas ela ainda deve ser discutida com cautela e em centros com experiência nesse tipo de manejo.
Cuidado Especializado e Multidisciplinar: O Caminho Mais Seguro
Preservar a fertilidade durante o tratamento da leucemia aguda não é uma decisão simples, nem uma decisão que você precisa tomar sozinho. Envolve hematologistas, especialistas em reprodução humana, psicólogos e, em muitos casos, equipes de ética médica.
Você não precisa escolher entre tratar a leucemia e pensar no futuro. Com a equipe certa e o encaminhamento no momento certo, é possível cuidar das duas coisas ao mesmo tempo. Converse com o seu hematologista e pergunte sobre a possibilidade de ser avaliado por um especialista em oncofertilidade. Esse pode ser um dos passos mais importantes da sua jornada.
Mais informações sobre este assunto na Internet:
- Haematologica – Fertility Preservation in Hematologic Malignancies
- Journal of Clinical Oncology – Fertility Preservation Guidelines
- Journal of In Vitro Fertilization – Fertility Preservation Framework

